NAVEGANDO NA ESTRANHEZA DOS DIAS

escrita minha – prosas


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Redacção sobre o Outono

O Outono é uma estação do ano.
 Segue-se ao Verão e prepara-nos para o Inverno.
O Outono traz o início da escola e o fim das férias.
Traz a chuva, o frio e os ventos.
As árvores tiritam com frio pelo que as folhas encarquilham, como as pessoas quando envelhecem,
e caem das árvores forrando as ruas e os jardins e revolteiam no ar arrastadas pelos ventos.
O Outono começa no dia de um equinócio (que não sei o que é) e no dicionário dizem que a
«palavra equinócio vem do Latim, aequus (igual) e nox (noite), e significa “noites iguais”,
ocasiões em que o dia e a noite duram o mesmo tempo.»
Esta de noite e dia durarem o mesmo tempo não entendo.
As noites nunca mas terminam e os dias são curtinhos.
O Outono começou há quase um mês mas chegou atrasado, coisa que lhe agradeço,
pois tive mais tempo de sol e calor para brincar.

:::::::::::::::::::::::::::::::

COMO NOMEAR ESTA COISA
             *
…corroente, esmagadora, correndo por dentro de mim, carne ossos sangue mente alma, como um tufão?
Um vórtice que tudo desloca e coloca em precário equilíbrio e me desfaz para que me reforce.
                                    **
As águas escoam-se, lentas, gota a gota, através dos sacos lacrimais.
Nem se chega a ver a água.
Só um sulco |de diferente refracção da luz ou da ligeira e residual humidade| permanece por onde elas passam.
              **
Ardem os olhos como se colocados na boca de um vulcão activo.
Tristeza não é, mágoa, tão pouco.
Desespero?
Mas afinal o que é o desespero, a tristeza, a mágoa?
São dores. Diferentes dores |mas dores todas elas| mais do que sentimentos, apesar de deles resultarem ou serem consequência.
Isso consigo identificar. Por dentro.
                                                  **
Dor. Uma dor tão geral, tão total, tão absorvente que parece congregar |em si| as diferentes e restantes categorias.
Como mover, extirpar as dores na alma? Da alma?
                                               **
E como ter a certeza que é na alma que a ferida está aberta de lá emanando esta multiplicidade de dores que se revelam
 nos diferentes planos do corpo e da nossa humanidade?

……………………………

O HOMEM

(excerto do 1º capítulo da novela “Salvador o Homem”)

Salvador percorria as noites, de insónia em insónia, tentando olhar o mundo pelo prisma da noite, nos hábitos, nas vivências, nas rotinas ou desrotinas, nos seus indígenas, fauna bem diversa da diurna, nos cheiros e nas cores da noite. Sim, porque antes das insónias lhe dominarem as noites, homem regrado, Salvador achava que a noite tinha uma cor única: escura. Artificialmente iluminada. E nem se detivera a pensar sobre que cor e tipo de escuridão eram essas que atribuía à noite. Era escura e esse pensamento lhe chegava. Não, não era bem assim, sem ter consciência disso um outro atributo da noite coexistia com o anterior. O de perigo. Não é que, desde os primórdios, a escuridão sempre representou um factor de perigo para os humanos dada a sua incapacidade de verem no escuro?Talvez por algum primevo atavismo, conjugado com factores culturais, a noite detinha, para Salvador, esse atributo, de que se não encontrava consciente.

Um dia Salvador não dormiu. Pensou que algum alimento cuja digestão se houvesse atrasado, apesar de não sentir qualquer tipo de incómodo, seria o responsável pelo facto. Facto mesmo foi a repetição, noite após noite, da insónia. Curiosamente, para nós, e intrigantemente para ele, o dia a dia decorria na máxima normalidade e as suas funções eram desempenhadas com eficácia e eficiência, sem cansaço e sem qualquer tipo de nervosismo.

Passaram meses e a situação mantinha-se. Os dias passaram a ter vinte e quatro horas para preencher a seu belo prazer. Mais sete horas e trinta minutos, que era o tempo médio de sono, antes de se tornar um insone.  Salvador sentia-se bem, sentiu-se feliz. Tanta coisa que deixava por fazer por falta de tempo….Quem se não sentiu nada feliz foi a mulher de Salvador, a D. Ermelinda. Ora se tinha algum jeito o marido não dormir, abandoná-la. Sim, abandoná-la, pois, a breve trecho, percebendo a total e continuada ausência de sono e a inexistência de quaisquer sinais de cansaço, Salvador deixou, de todo, de ir ao leito. Para quê perder tão precioso tempo, deitando-se e ficando a olhar para o tecto, para o ar, para o nada, na vã esperança de voltar a ser uma pessoa comum, isto é: com horas de deitar, dormir e acordar?

Nas frias noites, deixava o tálamo conjugal instalando-se, confortavelmente, na sua poltrona preferida que, rapidamente, foi trocada por uma mais moderna, reclinável, com várias posições e extensão, para pernas e pés, onde Salvador se entregava às delícias da leitura, do visionamento de filmes, ao xadrez no computador, (sim, que esse nunca sofria de insónia dado não precisar de dormir,) à construção de puzzles e às paciências, enfim, a uma série de actividades de que gostava e das quais tirava prazer e que sempre considerara boas para a musculação do cérebro, ou, parafraseando o ficcionado, mas não menos célebre inspector Poirot, belga e não francês como insistia em frisar, «as celulazinhas cinzentas».

A D. Ermelinda é que se não conformava e, quanto mais feliz via o marido com tanto tempo, liberto da escravidão do sono, façamos aqui um aparte para realçar que , apesar da bizarra e continuada ausência do tálamo conjugal, como a D. Ermelinda gostava de dizer, não descurava os seus deveres de cônjuge, antes os exercendo mais animadamente facto que, apesar de tudo, não compensava a senhora pelo abandono sentido, dizíamos nós que a infelicidade da D. Ermelinda crescia proporcionalmente á felicidade do marido. O descontentamento apoderou-se dela, apesar de nunca antes ter confidenciado a ninguém, familiares ou amigas, o mínimo detalhe do que considerava sua vida familiar e portanto só do seu foro íntimo e do marido. Nem o mais pequeno desacerto ou a mais pequena briga, por mais injustiçada que se sentisse, alguma vez a levaram a quebrar esta regra.

Estranhamente os sinais de cansaço que era suposto aparecerem no insone: cansaço, irritabilidade, tez baça, olheiras, falhas de memória, baixa concentração e decréscimo do rendimento profissional apareceram na D. Ermelinda como consequência do pensamento fixo sobre o fenómeno que se abatera sobre o seu tão bem estruturado casamento. Leia-se: rotineiro.

(…)

Paulino, Conceição, do livro “Salvador o Homem e Textos InConSequentes”

……………………….

a transformação

(…)de fora ninguém pode imaginar a casa. a mulher não sabe como, mas aos poucos mais felinos chegaram. abordavam-na na rua. como velhos amigos.  seguiam-na e entravam na casa como o fizera o primeiro. ela aceitava-os. havia muito espaço. todos se davam bem, brincando entre eles, lavando-se uns aos outros como se fazendo parte de uma mesma tribo apesar das diferenças de idade e género e até do ano de chegada.
uma vez ou outra as coisas azedavam um pouco, saindo da mansa rotina da casa, o que a mulher considerava normal pois os humanos também têm zangas entre si porque todos temos uma personalidade e, como o próprio nome indica, se é personalidade, é de uma pessoa ou ser distinto – única – e por isso com características próprias e diferente dos outros. o mesmo se passava com os felinos.
aos poucos os móveis de castanho e nogueira começaram a expandir-se e, às tantas, a casa já não tinha móveis, mas árvores. belas árvores onde os felinos brincavam e para onde traziam, apanhando-as no terraço e quintais vizinhos, aves que nelas faziam ninhos entre os viçosos ramos e folhagem.
os felinos brincavam com as aves que fugiam deles esvoaçando ruidosamente pela casa, mas, quando calhava serem apanhadas, depois de algum tempo de brincadeira, o felino que as apanhara vinha colocá-las aos pés da mulher, em oferenda, deixando que ela decidisse o destino a dar-lhes. a mulher sempre as deixava voltar ás árvores, tratando-as, nos casos em que a brincadeira fora um pouco além do desejável para a integridade física da ave. estranhamente, tanto ou mais do que a transformação dos móveis, ou a regressão dos móveis, da madeira dos móveis para as árvores originais, era a dimensão destas. sempre ajustadas ao espaço da casa, nunca dela extravasando, nem a ninguém exterior dando sinais de tal transformação. a mulher nunca compreendeu onde estavam as raízes das árvores. para onde se haviam expandido, pois nem nas paredes nem no chão houve alterações. a casa deixou de ter móveis e passou a ter árvores. das carpetes, tapetes e tapeçarias, antes com motivos animais e florais, desabrocharam canteiros de odoríferas e variadas flores sempre viçosas e renovadas.
a mulher continuou a sua vida nesta casa que, sendo a mesma era outra, esta casa era um mundo novo. uma extensão de Gaia que esta, generosa, amorosa e magicamente, lhe ofertara.
(Excerto de um conto meu)

……………………..

Pegada impressa
 
No asfalto, com criterioso cuidado, lenta e minuciosamente, imprimi minha pegada e sorri de leve, de mim para mim.
De mim. Para mim…
Como todas as pegadas que deixamos, na vida, esta será apagada (apagada e bem!) pelas posteriores.
………………….
excerto de livro  sem título (inédito)
Sentada no velho cadeirão que foi de meu pai, desenhado por ele, por ele escolhidas as madeiras e desenhada a curva que acompanha a coluna bem como a sua execução num mestre carpinteiro de que não lembro o nome_ foi num outro século _ aqueço ossos e músculos.
O sol da manhã, não muito quente, conforta-me. O livro permanece no colo. Esquecido. As memórias sobrepõem-se à leitura e nada as impede de voar recriando momentos e outros tempos.
Hoje, é  Augusto que toma de assalto meus pensamentos. Se fosse vivo faria cem anos Um século. Hoje, no primeiro de Agosto.
Tenho oitenta e sete anos. Mais três meses e, se lá chegar, ou se Deus quiser como as pessoas gostam de dizer temendo que Deus se zangue se o não disserem e por castigo lhes encurte as vidas, serão oitenta e oito.
Talvez pela passagem do centenário de seu nascimento hoje Augusto se me faça tão presente. Ou serão os mortos vindo ao meu encontro? Que importa. Tive uma vida plena. Nada lhe faltou. Alegrias e tristezas, estas bem abundantes, mas compensadas pelas bênçãos que a vida sempre nos traz. Não temo a morte. Bem ao contrário dele.
Fui convidada por uma cadeia televisiva para, numa entrevista, falar do escritor Augusto Rodrigues de Noronha. Para mim, Carlos Augusto, ou Augusto somente. Recusei. Cansam-me estes eventos e nostálgicas “homenagens”.  Ademais sempre lhe disse – e verdade falava – se morreres antes de mim espero que nunca, de ti, me peçam testemunho, pois escondes-te. Pouco sei da pessoa que és. Do teu verdadeiro eu.  Sentires, alegrias e tristezas… Nada partilhas. Antes te camuflas.
(…)
______________

o mundo em frag(mo)mentos

frag(mo)mentos. momentos fragmentados. fragmentos de momentos…serão as três coisas uma só ou a estrutura lexical altera o sentido ocorrendo assim variações, ou, mais profundamente, alterações ao próprio conceito?
estou defronte do mar. olho-o com ambos os olhos abertos. ergo a mão direita e coloco-a de forma a tapar-me a visão. uma concha escura onde cintila o vermelho do sangue que as percorre enche-me os olhos. aos poucos entreabro os dedos criando frinchas por onde o olhar foge. vejo dois fragmentos de mar, alargo os dedos , crio mais espaços e são agora quatro os fragmentos que avisto. o cérebro capta-os, um a um e reunifica-os. volto a ver uma imagem intercalada por leves sombras que sei representarem os meus dedos. não só vejo. só à ténue sombra. sei-os ali.
faço o mesmo exercício mas abrindo só um dos olhos. brinco e delicio-me com o resultado de realidades alternativas. ergo-me, encosto-me a um rochedo e faço o pino mantendo os olhos abertos enquanto o corpo roda e a visão com ele. fecho depois os olhos por um longo período. Reabro-os uma a um, alternadamente. é um diferente momento e espaço o que vejo. uma realidade diferente. caleidoscópica.
torno a fechá-los para esquecer as imagens. para que se apaguem da película os resíduos que as projectaram. quando nada mais vejo do que manchas escuras com correntes sanguíneas que circulam nas pálpebras abro-os e assim fico.
o mundo visto de pernas para o ar, quando sou eu quem está de pernas para o ar. porque será que o mundo continua a parecer sempre muito mais luminoso quando o observo de pernas para o ar?
tu que me lês,experimenta…

_______________

 these boots were make for walking…

 
 

 

 

 

 

 

 

representação da palavra HISTÓRIA que enviei para o Fotodicionário

  

 

 

 

pois é amizades. para isso foram feitas e para tal têm servido, razão porque foram a minha opção de representação da palavra “história” no Jogo Fotodicionário a que a Manuela nos desafia semanalmente no seu Palavra Puxa Palavra.
parece um pouco absurdo num período da nossa mais rica história recente: o 35º aniversário do 25 de Abril e do primeiro 1º de Maio livremente vivido e expresso. situações intensas e ricas que mudaram a face do país e, digam o que disserem, devolveram a liberdade e se muitos há que ainda não a exercitam ela está aí, para quem a apanhar e usar no exercício pleno da sua cidadania implicando direitos e deveres.
vivemos mergulhados na história em curso. muitas vezes nem nos apercebemos do significado das ocorrências, das mais singelas às mais profundas e abrangentes. a história, para nós, é associada ao passado. esquecemos que não tarda sermos nós, o nosso tempo, os instrumentos que usamos, dos mais singelos aos mais complexos e os nossos actos, “objectos” históricos.
construímos,lemos e interpretamos a história em função dos testemnhos registados, dos simbolos e sinais deixados e que resistem ao tempo.
sinais e símbolos estas minhas botas que têm caminhado comigo por 1/3 da minha vida. pertenciam a minha filha do meio que se fartou e as deixou para dar. olhei-as curiosa – intrigava-me a confortabilidade das mesmas – inquiri: mas são mesmo confortáveis?
– do melhor mãe, retorquiu.
nada como experimentar.
feita a experiência comigo ficaram 22 anos. caminhamos milhas e milhas, vivemos estórias, partilhamos alegrias e tristezas. de tudo sabe. tudo andou. tudo viu e testemunhou, mas há um pacto entre nós e nada divulgam a não ser o gozo que foi para ambas correr mundos e…viver!
a História é também feita de pequenas histórias como esta. só que esta é uma história privada que não mudou o mundo, não figurará nos anais, mas partilhámos muitos actos de mudança
__________
eu, benjamim
sou Benjamim , filho mais novo de Jacob _ mais tarde baptizado por Deus, como Israel e dos seus doze filhos nasceram as doze tribos de Israel – ao que dizem seu filho dilecto, mas em verdade, José o era. minha mãe, Raquel, morreu ao dar-me à luz e suas últimas palavras foram o nome que queria dar-me: Ben-Oni. meu pai mudou-o para este por que respondo. nossa vida é regida pela simplicidade . o amor  expressa-se em todos os nossos gestos. de uns para com os outros e para com a natureza e Deus que tudo nos dá. a verdade  é um valor instilado desde o berço apreendido pelo exemplo dos mais velhos _ só pelo amor, pela verdade e pela partilha  nos tornamos dignos da humanidade que o sopro divino em nós instilou. claro que o aprendizado da partilha também é uma necessidade para a sobrevivência da tribo e do clã. assim como a coragem . mas somos pacíficos. vivemos do pastoreio. eu sou pastor e tocador de flauta. alimentamo-nos de legumes e cereais, de leguminosas e do leite das cabras. com eles fazemos os queijos que duram mais tempo e colhemos os frutos que as árvores dão no tempo certo.
com estas vitualhasvivemos saudáveis e longas vidas. por vezes a dieta é enriquecida com peixes. muitos são fumados ou secos criando uma reserva para dias de carência. só em ocasiões festivas comemos carne sacrificando um ou mais animais, mas para tal lhes pedindo permissão e perdão. as nossas mulheres cuidam dos filhos _ de todos, pois todos somos uma unidade _ e confeccionam os alimentos. desde crianças aprendem a tecer os fios do linho, do cânhamo e a lã com que fazem as nossas vestes, mantos, mantas e demais panos necessários à protecção dos corpos face as intempéries. aprendemos o valor da poesia e construímos ODEs ao amor terreno e ao amor divino que nos criou e de tudo nos provê. o amor de uma mulher tem a leveza do beija-flor e faz florescer nossos dias quando nos enriquece com filhos. uma maldição  se abateu sobre nós quando, por vinte moedas de prata, vendemos José aos ismaelitas tendo-o estes, mais tarde, vendido no Egipto, a Potifar, eunuco do faraó e chefe dos guardas. desde essa altura os cereais não medraram, os pastos secaram, assim como os poços.
___________
ode à vida
na simplicidade  de seu viver, com alegria e coragem , o beija-flor tece uma das mais belas odes á vida quando, de flor em flor, recolhe as vitualhas  que lhe são alimento enquanto em toda a natureza, da flauta  de Pan, ressoa um cântico de amor  – o benjamim  da vida. seu filho dilecto. fonte de tudo o que existe – e verdade onde a partilha  é a lei maior. tão poderosa que não há maldição  que logre inverter este ciclo mau grado as sucessivas rupturas criadas.
Nota: eu benjamim e ode à vida são textos do 12º Jogo das 12 Palavras no Eremitério.
_______________
Miranda riu
As gargalhadas soltas, abertas, explosivas que lhe eram tão peculiares.
E o riso estalou o ar.
As águas.
Propagou-se pelo mundo.
E Miranda, que sorria muito mas ria pouco, continuou a rir.
Intensas e vibrantes gargalhadas.
Nem saberia dizer porque assim ria. Há risos, normalmente os mais profundos e fecundos, que nascem e explodem de irrisórias coisas.
Ria do próprio nome; ria das sensações que a água lhe provocava; ria das estranhas emoções que sentia. Estranhas porque nunca antes sentidas nem imaginadas. Sem referências que permitissem uma comparação a quaisquer outras.
Tantas vezes imaginara aquela situação e sempre se quedara.
Como se o espírito parasse, o cérebro não pensasse. Só uma pergunta persistindo: «como será?»
E dentro dela silêncio total. Incapaz de encontrar uma resposta.
Sabia-o finalmente. E era esse saber, sentido, vivido, que assim a fazia rir.
Percebia agora a razão porque quando buscava entender, explorar hipóteses, o pensamento paralisava e sempre ficava.
Suspensa na mesma questão: «como será?»
Riu com mais força.
Até a água ao seu redor marulhou de forma diferente, espelhando e transportando o riso que se quebrava e multiplicava ao embater nos raios solares que perfuravam as águas.
Miranda ria de felicidade pelo que sentia. Pela descoberta e um pouco pela ironia.
Não saberia como dizer aos outros, explicar-lhes. Desvendara o mistério da pergunta que nunca parara no seu espírito, mas não o podia partilhar.
E a ironia da situação fazia rir ainda mais.
E todas as singelas, até as fúteis ou irrisórias razões que a faziam rir, se misturavam construindo como que uma piada cósmica incomunicável.
Lembrava-se de ter comido o húmus da terra. Deitada no solo, de bruços, enterrando-se mais e mais na argila húmida.
Argamassada pelo orvalho e movimentos de fusão do corpo. Comera-a à dentada.
Como quem sacia fome antiga.
Depois quedara-se. Fundidos, ela e a terra. Duas consciências em presença mas sintónicas.
Não era noite nem dia. Era um tempo fora do tempo e do húmus da terra que à dentada comera. Dentro de si nova vida germinara.
Só então, quando essa vida quis sair, por chegada a hora, se ergueu como vida nova emergindo, e voltou a olhar o azul.
Viajara, mas viajara pelo seio da terra, da pedra. Sólidos e fundidos materiais. Mas nunca o ar, não o longínquo e inexistente azul dos céus.
De cócoras, na cova deixada pelo corpo que agora se erguera, deixou que novas vidas dela escorressem e naquele ninho criassem raízes e crescessem.
Do leite gerado pelo húmus da terra e que dos seios jorrava como de fontes, se alimentaram até ao dia em que souberam morder a terra, comer-lhe o húmus.
Nesse dia o leite deixou de jorrar.
E nesse dia Miranda soube que havia que partir.
Acabara aquele segmento do caminho. Outros seriam agora seus percursos.
Levava nos lábios o sabor agridoce da terra e o refrescante da seiva das velhas árvores debaixo das quais se fundiram. A terra e ela.
Mas o ar era agora seu habitáculo e sustento.
Corpo sem corpo, percorreu o mundo e mundos outros levada pelos ventos, puxada pelos vácuos.
Regressou um dia à floresta e ao aconchego do ninho de onde partira. De costas se deitou, olhos sempre abertos fitando o azul lá longe por onde viajante fora e sabia agora que não era azul, e sabia de tudo o que havia para lá do azul que julgamos ver.
Mas a pergunta nunca a deixara: «como seria?»
Ficou.
O tempo deslizando exterior a ela.
Miranda vivia num espaço-tempo não mensurável.
Sem intenções, projectos, sonhos, compromissos.
Vivia porque era.
Uma consciência.
E sabia que o dia chegaria em que, da voz da terra, surgiria a palavra murmurada pelos veios de água que corriam à superfície e em profundidade.
Na terra e nela, fundidas que estavam.
E um dia a voz da água falou, clara e nítida, cristalino e musical som.
Bem diferente do grave som da voz da terra, ou das pedras.
Os olhos abertos abriram-se finalmente e Miranda retomou o caminhar.
Retomou porque a consciência era una e a mesma, reconhecia o nome que os pais lhe atribuíram mas nada mais havia em comum.
Outro agora o caminho e o tempo.
Os pés, enraizados na terra, soltaram-se e Miranda voltou a caminhar sobre ela.
Sempre guiada pela voz das águas adentrou o mar, abriu a boca, todo o corpo, e engoliu-o. Às golfadas. Até se saciar. Até sentir as marés nascerem e morrerem em seu corpo.
Viajou nas águas e maravilhou-se com os azuis, com todas as inimagináveis cores e jardins, universos vivos e novos, que encontrou.
Viajou guiada pelas profundas correntes marinhas.
Finalmente soube que fechara um ciclo. Nesse momento a pergunta teve resposta. A resposta que sempre procurara.
Morrera.
Lembrava-se de ter sido Miranda, mas era muito mais do que isso.
No mundo humano diriam: «afogou-se».
E Miranda riu de novo fazendo toda a água explodir em som luz e cores.
De novo um ser marinho.
Afinal era tão simples…
Renascer. Voltar às origens da vida e, um dia, recomeçar o ciclo até o cumprir.
Miranda riu.
Feliz e completa.
PAULINO, Conceição.2007. in Salvador o Homem e Textos InConSequentes
 

 

 

 

 

11 comentários »

  1. Aqui estou neste seu novo espaço.
    Cumprimentos meus.

    Comentar por vieira calado — 2009/04/22 @ 14:32 | Responder

  2. Muito agradável este teu novo espaço.

    Comentar por peciscas — 2009/04/22 @ 18:37 | Responder

  3. A primeira coisa que me ocorreu, foi: Ora aqui está uma mulher de armas!… Mas como sei que sempre foste uma pacifista, vou limitar-me, por ora, a felicitar-te e a deixar-te um abraço amigo!

    Comentar por albino santos — 2009/04/23 @ 13:37 | Responder

  4. Só queria dizer-te quanto me agradou entrar neste espaço, saborear a escrita, tomar consciência
    de uma sensibilidade muito peculiar. Humana, terna, delicada
    Rocha de Sousa

    Comentar por João de Sousa — 2009/04/23 @ 14:26 | Responder

  5. «these boots were make for walking…

    “a História é também feita de pequenas histórias como esta. só que esta é uma história privada que não mudou o mundo, não figurará nos anais, mas partilhámos muitos actos de mudança”

    é isso mesmo!

    Comentar por Raquel Vasconcelos — 2009/05/01 @ 11:05 | Responder

  6. São as pequenas histórias que enriquecem a nossa história tanto pessoal como global.
    Gostei das botas com história.

    Comentar por Benó — 2009/05/01 @ 12:43 | Responder

  7. “o mundo em frag(mo)mentos”

    Interessante maneira de ver o mundo de várias formas não saindo do mesmo local.
    Fez-me pensar naquelas alturas em que olhamos pela janela e as pessoas vão passando, sempre diferentes, sempre caminhando a pensar em mundos diferentes…

    Comentar por Raquel Vasconcelos — 2009/05/02 @ 15:29 | Responder

  8. Talvez porque estejamos com a mente mais aberta e tudo pareça diferente….
    Gostei muito de ler as histórias..
    Abraço
    Marta

    Comentar por Marta Vinhais — 2009/05/02 @ 15:30 | Responder

  9. Como conhecia as botas “pessoalmente” acreditava que a história delas seria mais ou menos o que contas e bem.
    Bjs
    TD

    Comentar por TERESA DAVID — 2009/05/02 @ 23:59 | Responder

  10. Gostei do texto dos felinos que tanto mexe comigo como deves calcular, amante que sou, incondicionalmente, dos mesmos.
    Tenho a casa outra vez a arder de calor e é com os óculos a escorregarem no suor que te comento.
    Bjs
    TD

    Comentar por TERESA DAVID — 2009/07/19 @ 21:53 | Responder

  11. viva 🙂 cá estou eu a estrear esta caixa de comentários para dizer que estou a gostar do conto, das árvores, dos gatos (tantos!) acordaste inspirada 😉

    Comentar por Ana Eugénio — 2009/07/20 @ 17:40 | Responder


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