NAVEGANDO NA ESTRANHEZA DOS DIAS

escrita minha – poemas


Esta semana a palavra  a representar fotograficamente no Fotodicionário  foi apalavra ENCAIXE.
Se forem até lá podem ver a foto que enviei bem como as de todos os restantes participantes (clica em Fotodicionário)
Aqui deixo o poema que a palavra me sugeriu e que vai por rumos bem diversos das imagens.
No final podem visualizar dois conjuntos com 5 representações outras da palavra “encaixe”:
 
perfeição
 
perfeito o encaixe dos corpos
medidas e formas torneadas
para que um do outro sejam
molde e cama.
a cada côncavo vale,
perfeito altaneiro  convexo
se aninhando.
 
supremo resplendor
sobre eles brilhando
de glória os dias nimbando.
 
Conceição Paulino
S. Mamede de Infesta, sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
 (Palavra do Fotodicionário de 22 a 29 Outubro)
5 Encaixes

5 representações da palavra ENCAIXE

{
{
{{
{
{
{
{
{
{
{
{
{
{
}
}
}
}
}
}
}

 
 
 
 
{

Encaixe 2

+ 5 representações da palavra ENCAIXE

{
{
{
{
{
{
{
{”
{
{
{
{
{
{
{
{
{{
{
{
{

{
{
{
{
{
{
{

:::::::::::::::::
vivendo sem falsidade
Já clareava a manhã
Ao romper da bela aurora
Quando na sétima hora
Com todo o meu afã
Nasci. Pequena pagã,
Baptizada de Clarisse.
Em alegre meninice,
Desconhecendo a dor
Cresci envolta em amor.
Por ternura, por meiguice.
 
Menina fiz-me mulher
Sem ver os dias passar.
A correr e a saltar
Num tempo de bem-querer
Desfolhei o malmequer
Buscando a felicidade.
Vivendo sem falsidade
Encontrei o meu amado,
O tal, o predestinado.
Por amor e por vaidade
 
Fui senhora, fui patroa,
Fui mulher e fui amante
Levando a vida adiante
Por inteiro fui pessoa
Não vivi a vida à-toa.
Conhecendo-lhe a brevidade
Vivi-a com dignidade
E estremado amar.
Sorvi-a como um manjar…
Não perdi a mocidade.

:::::::::::::::

vulnerabilidades 

na luz da manhã a criança vê,
a luminosa  silhueta da mãe
tal suave pluma, leve pena,
dobrar-se sobre os canteiros a
afastar ervas daninhas das flores
que ainda  cintilam sob as gotas
do matinal orvalho semelhando
viva, colorida  e mágica tapeçaria
                       **
na sua inocência e pureza
só capta o amor que sente irradiar,
vibrar no ar entre ambos. e
entre a mãe e aquele pequeno universo
de cores e odores. desconhece
ainda a vulnerabilidade
da vida humana. a
vulnerabilidade da mãe
de onde, pouco depois  a
vida se esvaziou.
.     **
hoje, homem feito, o juiz conselheiro,
regressa ao temp(l)o do jardim,
ao temp(l)o da pureza e do amor
incondicional que lhe foi pão, leite e água..
                    **
busca força, reúne energias
para, com sentido de justiça,
lidar com a sistemática
obstrução com que as meias
verdades e as mentiras têm
inquinado o processo
daquela feroz e violenta
morte de que o homicida
se ri e vangloria transformado
o monstro numa exponente
figura dos mídia
enquanto a vítima, retalhada,
caiu no esquecimento das gentes
no circo em que a vida se transformou.

 …………………………….

DSCF0092

 +

*

*

*

*

*

*

*

*

*

  **                      *

      **
A rosa pôs-se à janela
A ver a vida passar.
A vida passou por ela
Sem para ela olhar.
              *
A vida passou por ela,
Ela não a viu passar.
Era menina-donzela,
Mas cedo deu em murchar,
                         *
Pois a vida é movimento
Não é paragem, espera…
Só um ser de pouco tento
Alimenta vã quimera.

………………….

quantas vezes

                *
quantas vezes pode
um humano coração
partir-se?
           *
quantas vezes?
                *
quantas vezes pode
o humano coração
reconstruir-se?
          *
e de cada vez
que se parte
e de nós se aparta
|estilhaços voadores…|
             *
que partes
a nós retornam?

………………………

pégadas

*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
No asfalto, com criterioso cuidado,
lenta e minuciosamente,
imprimi minha pegada e sorri de leve                  *
De mim para mim.
           *
De mim…
         *
Como todas as pegadas que deixamos
|na vida|
 esta será apagada |e bem!|
pelas vindouras.

……………………….

Canção do tempo
                *
Do tempo não sei dizer
O dia em que t’encontrei.
Porque do tempo não sei.
Nada mais posso fazer.
                  *
Sorrio às nuvens que passam
Nos céus suave vogar.
Eu teço os fios da seda
Que a ti as vão ligar.
                *
Ligo e desligo e lanço,
recomeço a tear,
mas a teia que assim faço
de ti me faz afastar.
            *
Numa mansa quietude
Corre o ribeiro na casa
Desaguando a meus pés
Uma doce maré vaza.
                *
Pego o mais fino fio
Da seda que já teci,
Lanço-o ao céu como um rio
Enquanto a criança ri.
           *
Solto o papagaio no vento
Porque no ventre te trago
Fome, sede e alimento,
Tão pequeno como um bago.
                         *
Mas tamanho nada é.
Do sentir, nada nos diz,
Assim como não sabemos
Quem é ou não é, feliz.
                        *
No sorrir de cada um
Cada um, sem o dizer…
                    *
De si só diz o que quer.
……………………….
procuro a palavra original
          *
           *
olho o ecrã branco
e a sua bordadura cinza
um difuso reflexo de mulher…
       *
a difusa imagem
parece-se comigo
      *
parecer e ser…
ser e parecer…
ou, parecer, ou ser
ou
ser, ou parecer (?!)
             *
o branco abismo fatal
onde sempre mergulho
e rabisco, rabiscos
com sentido
sem sentido
rabiscados
procurando a palavra
a escrita original
          *
rabiscando
rabisco
        *
me construo
e desconstruo
me renovo
refaço
nasço
e sei que existo.

………………………

Cantar de amigo

           *

Amigo, de mim te apartas
Com um aceno de mão.
À medida que te afastas
Parte-se-me o coração.
                 *
Parte-se-me o coração
Vidra-se o meu olhar.
Desmedida esta paixão,
Desmedido é meu amar.
                     *
Desmedido é meu amar,
Desmedida é a loucura
Que te leva a velejar
Para tão grande lonjura.
                  *
Para tão grande lonjura
De meus braços apartado,
De meus olhos a frescura
Do coração retirado.

………………….

furtos
entre a casca e o olhar, a pele.
                         *
Os símbolos dos dias inserem-se nas falas
                         *
É nas falas que se inserem os símbolos dos dias.
Deveríamos estar-lhes mais atentos.
Escorrem nas conversas de café, nas conversas ao telemóvel, nos chats, por todo o lado e sob todas as formas.
Em falas que se inscrevem em conversas sem peias, sem grandes níveis de censura, sem controle, porque tudo navega no imponderável, no informal, no convívio companheiro e também na ausência do outro, quando não: falas de “outros” ficcionados por eles mesmos – alter egos criados virtualmente.
                               *
Os símbolos acompanham-nos, mas cegámos para eles.
Em nome da racionalidade e do pragmatismo auto-mutilámo-nos.
É preciso voltar a procurar essa parte e deixarmo-nos invadir por ela.
Abrir as portas da emoção contida.
Olhar e ver. Escutar e ouvir e, já agora, olhar também para o mundo ao redor e para os céus.
Olhar as estrelas e a lua, de dia ver o sol e senti-lo. Deixar o vento passear nosso corpo e apreciá-lo.
Podemos começar por aqui e deixar a emoção reconstituir-nos.
Aproveitemos a noite e olhemos a lua.
                      *
Mas o exercício final, o objectivo último, é o de despertarmos para os outros nas suas diferenças e idiossincrasias – riqueza maior da humanidade – nos seus gestos de ternura, ou nos gritos de socorro.
                   *
Vamos lá reaprender a ouvir os sinais dos dias que se inserem nas falas dos nossos múltiplos quotidianos.
                                                  *
PAULINO, Conceição (2006) in Salvador o Homem e Textos InConSequentes

……………………..

amanhecer é acordar em teu olhar
                                     *
amanhecer é acordar em teu olhar
vigilante guardião de meu ser
ondas de ternura cobrem o físico
espaço onde a matéria vive
e o corpo repousa tocam a
imponderável e invisível substância
da alma e do ser doces correntes
que nos ligam e confortam
e |a cada manhã| se reforçam
no íntimo momento de amar
|porque|
              *
amanhecer é acordar em teu olhar.

…………………….

 liberdade outra

foi uma queda a pique
não voo
não o sonho de liberdade
                          *
o ar silvava violentamente.
a velocidade da queda
aumentava.
o atrito coisa física.
dor e susto
              *
como quem voa
abriu os olhos
olhou e viu uma
mancha de cores
aproximar-se
a alta velocidade
pensou: isto não é voar
é cair. o medo tomou-o.
era um animal
ferido. nada mais
do que um animal
ferido em pânico.
                         *
um pensamento esboçou-se-lhe
na mente mas desapareceu.
tolhido o ser pelo medo
congelou. pedra em queda livre
não a liberdade procurada
a morte esperava-o.
             *
um pensamento formou-se:
a morte também é libertadora

…………………….

visão do mundo

                       *

o mundo |fora de mim|
corre e agita-se.
               *
é um mundo que recuso
no mais íntimo da alma
é um mundo feito de
pressa sem objectivo
raiva
rancores acumulados
ódios novos
e antigos anquilosados
é um mundo feito de
competição
hipocrisia
sorrisos ensaiados
esgares apertados
dedos enclavinhados
corações enlutados
é um mundo feito de
dominação
esmagamento
dilaceração
destruição e
aniquilamento do ser
……..
contradição
é um mundo feito de
homicídio consentido
eleito entronizado.
baptizado abençoado.
é um mundo feito de
crimes.
                      *
é um mundo que nos envergonha.
é um mundo que me dói
é um mundo em que não participo
é um mundo em que não existo
é um mundo que urge mudar.
                               *
(do meu livro “meu país é um sonho sonhado” – lançamento 11 de Julho)

…………………………

parto
    *
parto
com meus pés de areia e água.
                    *
desbravo caminhos
refaço o corpo e o caminhar
           *
se é rugoso e áspero pouco importa.
todo o caminho feito se torna dócil percurso
entre sonho e desejo
manso correr de águas. macio pisar em folhas e musgos.
                                 *
e assim |sempre areias e águas| que nos compõem
se renovam
caminhando….

………………………..

rostos

olho os rostos no autocarro
_________________ outros
_______  mas sempre iguais.
                    *
recuso-me a ser só isto.
janela aberta à vida
desmesuradamente vazia.
                        *
é preciso dar-lhe um rosto
e um sentido.
                *
Do livro a apresentar dia 11 de Julho 2009
………………….
roubam-nos pedaços da alma
                            *
 
Por tudo o que os deuses
Lançam sobre nós na sua indiferença:
Águas, ventos, sonhos, utopias
Guardamos a semente das
Ideias que florescem nas manhãs
Ou nos acordam nas trevas da noite.
&
 
Por tanto que nos dão e tiram
Lançamos sementes aos rios
Almas sedentas e ávidas de sonhos
Gorados por humanos rápices
Ignóbeis seres que nos roubam
O ouro da alma nas palavras impressa
                                    *
Este site combate o Plágio, clica aqui  
                                   *
Poema feito depois de ler (mais uma situação de plágio. Fora as que nem apercebemos) Paula Raposo:
Terça-feira, 12 de Maio de 2009
Mais plágio
Em 23 de Abril editei aqui neste blog o meu poema ‘Nu’.
A 28 de Abril, usando algumas (muitas…)das minhas palavras, foi composto um texto pelo blog http://notasfrageis.blogspot.com, por um/a tal de Sigurhead.
Se pretende publicidade, pois aqui a tem e como tem os comentários moderados, o mais certo o meu não vai aparecer.
Espero o seu contacto.

Acho que já chega de descaramento!

A PESSOA EM QUESTÃO NÃO DEVE TER GOSTADO DE TER SIDO TÃO COMENTADO ESTA MANHÃ, QUE FECHOU O BLOG E SÓ OS CONVIDADOS PODEM LER…

……………………

A mulher continua a habitar
O calendário indica que o ano
se está a esgotar.
A mulher continua a habitar
a casa. A circular por ela.
A limpá-la, a abrir as janelas
para que o ar e o sol
a penetrem.
Senta-se, por vezes, ao sol,
nas varandas da casa.
Pega nos livros e lê.
Às vezes perde-se nos pensamentos.
Esquecidos os livros
nas mãos distraídas.
Descobriu, hoje, que o ano está
a chegar ao fim.
Uma certa estranheza invadiu-a.
Não se lembra do passar dos meses…,
não lembra quando foi à rua
pela última vez….Há já muito
tempo que não sai dos limites
da casa.
Lembrou-se ainda que o telefone
nunca toca. Nunca ninguém
telefona,
a saber dela, para falar com ela….
Em verdade também não
se tem lembrado de ligar
a ninguém….
Persiste-lhe a estranheza. Se
o ano se está a esgotar, se
se levanta, come, bebe, dorme
e habita dentro da casa, como é
possível fazê-lo durante tanto tempo
sem nunca sair à rua?
Sem que os amigos estranhem a sua
ausência e telefonem?
Não sabe explicar a estranha
situação.
Serena levanta-se da cadeira
que ocupa à secretária e vai sentar-se
na varanda, ao sol.
Sente frio.
Só se sente bem ao sol.
Habita a casa onde viveu, a mulher.
Desconhece que morreu.

PAULINO, Conceição.FALAR MULHER:48-49

________________

poema não conseguido

quero escrever-te um poema de amor
mas não sou capaz.
um poema de amor que fala da minha angústia
da minha espera vibrante
não é um poema para ti.
 
é um poema de amor
de amor egoísta, de mim para mim.
 
queria escrever-te um poema de amor.
um poema que dissesse tudo o que  nunca disse
tudo aquilo que por vezes contrario ao pensamento
mas que afinal quanto menos digo e mais recuso
mas sinto, mais quero e..mais aumento.
                                                     *
 este poema bem como muitos dos abaixo, faz parte do livro “TERRA DE ILUSÃO
| O meu país é um sonho sonhado por soldados e marinheiros|”
a sair em Junho, pela Edium Editores
________________ 

nem achada nem perdida

caminho na vida
mas não sei bem onde vou.
 
trago em mim o espanto.
o espanto |do mundo em que estou|
espanto das coisas
grandes e pequenas
e das coisas sem medida.
 
caminho na vida
nem achada
nem perdida.
 
caminho.
coloco os pés nas copas
das árvores que florescem
e com as mãos estendidas
acaricio as nuvens que correm
no céu azul |distantes e remotas|
 
há ruídos que me atingem
e odores que me penetram
densos e fluidos
trazendo memórias
despertando imagens
dormentes e dolentes
 
mas tudo se passa fora de mim.
 
em mim só há  a Primavera
que rebenta mil sóis
em cada braço de árvore.
 
a Primavera que me agarra
e me lança no longe.
a Primavera |tempo de milagre|
desabrochando em cada corpo
florindo nas pedras da calçada
dando vida às paredes
desta cidade parada.
 
 e os meus pés
|pisando as copas das árvores|
levam-me ao longe
que a Primavera promete
 
e o meu corpo
|que o tempo envelhece|
lança-se livre no voo
pássaro evanescente
estrela cadente.
 
mas é no mundo que estou.
 
caminho na vida
não sei bem onde vou…
 
caminho
nem achada nem perdida…

 _________________

como um rio que demanda

 
como um rio que demanda
o alfa e o ómega
correm as águas
 
não as contém as margens
|limites não conhecem
nem acolhem|
 
toda a busca é
perpétua e sagrada
 
só o fogo de teus olhos
desvenda
o lugar de todas as respostas
e as aquieta.
 

Com este poema colaborei no último desafio no Porosidade Etérea, sob o tema “ÁGUA”

_______________

 

caminhando

sigo os meus passos
perdidos
|cada vez mais lentos
e esmaecidos|
que me levam a percorrer
os mesmos caminhos
os mesmos trilhos
batidos
por tantos outros
antes de mim
com passos de procurar
com passos de esboçar
um tempo de mudar
a vida a viver
em igualdade
um tempo de construir
crianças com sorrisos
nos olhos
um tempo de levantar
casas com as mãos e
as pedras do amor.
um tempo de mudar
o injusto em justo
um tempo de renovar.
sigo os meus passos
perdidos
reencontro
|na areia dos caminhos|
sombras esbatidas
com que conversei
noutras eras.
vejo a imagem
esmaecida
das minhas pegadas
no pó indelével
do tempo
reencontro
|dentro de mim|
a marca cada vez
mais profunda
desta caminhada
deste vaguear
sem princípio
nem fim.

_________

somos muitos

aqui
ali
por toda a parte
onde a luz penetra
e a sombra se ergue.
num jardim
de penumbra rendilhado
na areia escaldante
na areia molhada…
aqui
ali
por toda a parte
isolada
na sombra e na luz
na quietude do lar
dormindo ou acordada
sinto o meu espírito
liberto, flutuar.
não estou só!
não estamos sós!
parecemos poucos
mas não se iludam
aqui
ali
por toda a parte
|pacientemente| construímos
com vontade invencível
de ganhar.

___________________

estranha Humanidade

 
sinto penso amo
choro e rio.
sou humana.
nesta estranha humanidade
movo-me
entre sinais e relações
imperceptivelmente
reconhecidas como tal
nesta impercebível humanidade
em que lágrimas
dos-não-humanos-liofilizados-
standardizados
corem como um rio,
navego
sinto penso amo
tenho corpo e alma
eriçados de frio.
neste estranho rio-mar
de corpos fluidificados
|pasteurizados|
de mentes iseguras
|barcos sem farol|
choro e rio.
nessa estranha humanidade
em que não existo
nessa impercebível humanidade
em que me procuro
neste estranho mar
sou porto de mim
e dos outros
abrigo de escolhos
ponto de encontro
de destroços.
neste porto em que existo
e em que sou
farol, abrigo, barco,
escolho e destroço
navego incansável
demandando
a verdadeira humanidade
de mim e dos outros.
o verdadeiro mar-azul
onde todos somos
farol e barco orientado
onde todos somos paz
não mais
barco a destroçar
ou … destroçado.

____________

Terra de ilusão

O meu país é um sonho sonhado
por soldados e marinheiros. Lenda
antiga de um paraíso encontrado.
Feira franca, leilão d’almas em venda.
                               *
Meu país, mundo nunca conquistado
ao reino da fantasia. É senda
de um caminhar só mal esboçado
onde, após o erro, não há emenda.
                              *
O meu país é contínuo sonhar
povoado por almas a penar
penas passadas. Terra de ilusão…
                           *
Meu país, contínuo derruir
de esperanças que perdemos a rir
enquanto se nos parte o coração.

_____________

ao homem

era assim que te queria amar
– como se fosses minha irmã.
fraternalmente. sem sobressaltos.
poder chegar a ti
encostar meu corpo ao teu
e deitar a cabeça em teu regaço.
ficar ali, em silêncio, a ouvir a tua voz
e falar do mundo, das coisas e de mim, de nós…
falar de tudo o que me preocupa. sem fim.
chegar-me a ti e ficar queda
a sentir o calor da nossa compreensão
sempre ao longe e tão perto.
era assim que devias amar-me
_ como se fosses meu irmão.

_________

Vivi nos penhascos

Vivi nos penhascos da loucura.
A atracção do abismo puxava-me e,
mais do que uma vez,
deles me debrucei
pensando deixar o corpo cair.
Solto.
Pássaro em queda.
Olhava e via o nada.
Um vazio imenso.
Sem princípio nem fim.
Sem luz nem estrelas.
Lugar onde nada começa mas tudo acaba.
Tentei abandonar os penhascos,
mas sempre a eles voltei, alucinada,
àquele vórtice de atracção fatal
que me induzia a soltar os pés
e iniciar a irreversível queda.

____________

 

teus pequenos olhos

teus pequenos olhos
viajavam-me por dentro.
por fora a pele
secou e,
poro a poro,
estaladiça, rachou.
inabitada.

_____________

escrevo na pedra

com os dedos
em garra
escrevo
meu nome na pedra.
iludidos os sentidos
de que,
assim,
encontrarão a realidade deste eu.
De mim.

_____________

ESTILHAÇO MEMÓRIAS

estilhaço a memória
em busca
dos múltiplos
eus.
desdobro
a curva do tempo
esbarro
nas arestas da vida.
Anúncios

35 comentários »

  1. Com imenso gosto te visito neste canto. Beijos.

    Comentar por Paula Raposo — 2009/04/19 @ 18:02 | Responder

    • Obrigada Paula.
      Já passaste pela “porta” “Divulgação de livros e eventos”?
      Bjs
      Luz e paz contigo

      Comentar por tmarat — 2009/04/19 @ 23:03 | Responder

  2. poema em queda
    a luz em desalinho
    de palavras

    só me resta escutar-te
    e ler os teus poemas.
    rosto de vivências
    e de pele nos versos.

    belos poemas, amiga

    um beijinho
    jorge

    Comentar por Jorge Vicente — 2009/04/22 @ 15:54 | Responder

  3. Lindos, os teus poemas!
    Venho desejar-te um rubro e florido 25 de Abril !
    e deixar-te a minha gratidão.
    beijinhos
    julia

    Comentar por julia coutinho — 2009/04/24 @ 10:11 | Responder

  4. E aqui estou…adorei este teu novo espaço, ficou bonito.
    Parabéns.
    Jinhos grandes!

    Comentar por Maria Clariknda — 2009/04/24 @ 10:21 | Responder

  5. Sobre “ao homem”,

    como compreendo bem o teu poema.
    Por vezes só desejamos deitar a cabeça e descansar. Como quando estamos em silêncio e o silêncio não pesa.

    Beijo

    Comentar por Raquel Vasconcelos — 2009/04/24 @ 11:58 | Responder

  6. Ser voz no deserto
    Asa no vento
    Palavra de horizonte…

    Assim é a tua poesia!…

    Um abraço!

    Comentar por albino santos — 2009/04/24 @ 12:31 | Responder

  7. Eu estive a ler a poesia que foi aqui publicada. Sem perder de vista a sua qualidade intrínseca,
    aconselharia (à autora e a todos nós) uma releitura de Alberto Caeiro, heterónimo de F. Pessoa,
    e «Os Passos em Volta», de Herbert Helder: duas dimensões sublimes, mesmo quando «castigadas», pa-
    ra melhor entendermos o nosso país
    Rocha de Sousa

    Comentar por João de Sousa — 2009/04/24 @ 16:51 | Responder

  8. “Vivi nos penhascos da loucura.
    A atracção do abismo puxava-me e,
    mais do que uma vez,
    deles me debrucei
    pensando deixar o corpo cair.
    Solto.
    Pássaro em queda.”

    Minha amiga gostei de ler estes momentos íntimos que quiseste partilhar connosco. Não pares. Continua a fazer o que mais gostas.

    O mundo que nos rodeia
    desconhecido e cinzento
    mostra a face dia a dia
    cada vez mais diferente.

    Vivemos como podemos
    sem o poder alterar
    façamos o que queremos
    sem nada nos importar.

    Oferta do meu pensamento de hoje

    Beijos

    Comentar por Lumife — 2009/04/24 @ 16:53 | Responder

  9. “Terra de ilusão”

    Belíssimo poema sobre o que sonhamos ser… há tanto deixámos de o ser…

    Comentar por Raquel Vasconcelos — 2009/04/24 @ 16:58 | Responder

  10. Tens aqui uma excelente amostra de sensibilidade e de talento.
    Parabéns!

    Comentar por peciscas — 2009/04/24 @ 17:16 | Responder

  11. TERRA DE ILUSÃO

    Querida amiga, a expressão poética do poema é linda!…
    O tema reflecte um realidade que todos sentimos. Mas não podemos resignar-nos a ser uma Terra de Ilusão! Cabe-nos a todos reedificar um edificio que começou a ser “minado” ainda ia a construção nos alicerces!
    Estaremos todos dispostos e empenhados em reconstruir um edificio que há 35 anos sonhamos construir?

    Um abraço… e um cravo vermelho!
    AL

    Comentar por albino santos — 2009/04/24 @ 17:40 | Responder

  12. Um que acaba por serem muitos poemas sobre varios temas que a vida nos torna presente e sentidos.
    Bjs
    TD

    Comentar por TERESA DAVID — 2009/04/24 @ 18:31 | Responder

  13. “estranha Humanidade”

    Realmente esta tua casinha faz-nos ler de uma forma mais límpida tudo o que nos queres transmitir.
    Que seria da humanidade sem a sua estranha humanidade… seria a mesma?

    (Muito bonito como sempre)

    Beijo

    Comentar por Raquel Vasconcelos — 2009/04/25 @ 12:55 | Responder

  14. “somos muitos”

    Um poema de esperança…
    “aqui
    ali
    por toda a parte”
    sonhamos
    vivemos
    sabemos quem somos…

    Comentar por Raquel Vasconcelos — 2009/04/26 @ 18:45 | Responder

  15. “caminhando”

    Um poema de “caminhar”, de reconstruir… de reconhecimento do que já soubemos um dia…

    Comentar por Raquel Vasconcelos — 2009/05/01 @ 11:02 | Responder

  16. É a caminhar que encontramos força para continuar a sonhar, a desejar, a construir quem somos….
    Lindo…
    Beijos e abraços
    Marta

    Comentar por Marta Vinhais — 2009/05/01 @ 11:59 | Responder

  17. Coisas novas e coisas lindíssimas. Confesso que …nunca tinha passado aqui…quem fica a perder sou eu, sem dúvida. Toda a poesia aqui deixa transparecer a pureza de alma do seu criador…o desejo de “Fazer a Diferença”…o desejo de mudar, reconstruir…
    A palavra pode ser um campo de batalha…e é, sem dúvida!
    Por tudo isso te agradeço com um beijo em azul
    BShell

    Comentar por blueshell — 2009/05/01 @ 12:05 | Responder

  18. Comi as tuas palavras.
    Agora?
    Tenho na boca um doce sabor de poema

    Obrigada por seres, Amiga, um Coração Grande

    Comentar por Cris — 2009/05/01 @ 17:39 | Responder

  19. Vais acrescentando qualidade à qualidade.

    Comentar por peciscas — 2009/05/02 @ 22:41 | Responder

  20. “como um rio que demanda”

    Belo poema!

    E também fui espreitar o link que indicaste e fiquei curiosa.

    Comentar por Raquel Vasconcelos — 2009/05/09 @ 10:34 | Responder

  21. Olá, querida amiga.
    Gostei imenso da tua (já bem conhecida) poesia. Mas agora é como um novo mundo que revelas.
    Eu compreendo-te bem. Com a idade novos horizontes se revelam.
    Continua cara amiga.

    António Durval

    Comentar por António Durval — 2009/05/09 @ 12:04 | Responder

  22. É bom seguir este teu rio que demanda a nossa sensibilidade.

    Comentar por peciscas — 2009/05/09 @ 23:00 | Responder

  23. “nem achada nem perdida”

    Caminhamos na vida sem saber ao que vamos… caminhamos recolhendo os sorrisos, recolhendo as lágrimas…

    Comentar por Raquel Vasconcelos — 2009/05/10 @ 11:56 | Responder

  24. Estás numa fase bastante pulsante de criatividade poética.
    Bjs e bom Domingo
    TD

    Comentar por TERESA DAVID — 2009/05/10 @ 15:15 | Responder

  25. Venho aqui com frequencia mas é um pouco complexo deixar comentários em cada teu poema.
    Gosto de te ler e faço-o com prazer, nota-se que a tua poesia está a evoluir.Será a poesia ou a maturidade da vida?
    Um grande abraço.

    Comentar por Benó — 2009/05/12 @ 08:07 | Responder

  26. A mulher continua a habitar

    Muito triste e bonito…
    habita sem já habitar…
    vive sem já viver…

    gostei imenso da temática e da forma de desenvolveres o poema.

    Comentar por Raquel Vasconcelos — 2009/05/17 @ 12:05 | Responder

  27. Obrigada a todas as amizades que por aqui me deixam sinais.
    Bjs
    Luz e paz em nosso caminhar

    Comentar por tmarat — 2009/05/22 @ 10:07 | Responder

  28. rostos

    é verdade… há um vazio em tantos rostos que passam por nós nos transportes.
    Reparo sobretudo no metro em que as cadeiras estão viradas umas para as outras.
    As vidas fogem-lhes do olhar.
    Até chegarem a casa, talvez, e voltarem a encarnar as suas personagens.

    Comentar por Raquel Vasconcelos — 2009/05/22 @ 12:11 | Responder

  29. Sensibilidade à flor da pele neste ” parto”
    ” parto
    com meus pés de areia e água.”
    ” se é rugoso e
    áspero pouco importa”.
    Gostei muito querida TMara.
    Mil bjinhos

    Comentar por Teresa Gonçalves — 2009/06/03 @ 12:42 | Responder

  30. O caminho faz-se caminhando.
    E o teu caminho é feito de muitas coisas bonitas que escreves.

    Comentar por peciscas — 2009/06/03 @ 19:08 | Responder

  31. Gosto muito dos teus poemas TMara. São poemas com conteúdo, sentidos e escritos com alma e com olhos de ver o mundo que te rodeia…sem máscaras. Beijinhos

    Comentar por Áurea Ponte — 2009/06/11 @ 12:30 | Responder

  32. Gostei do texto sobre os simbolos; a maior parte das vezes não sabem o que significam..
    Os poemas, como sempre, falam por si só – respiram com suavidade…Lindos…
    Obrigada pela companhia
    Beijos e abraços
    Marta

    Comentar por Marta Vinhais — 2009/06/24 @ 10:35 | Responder

  33. Gostei deste “cantar de amigo”…
    Obrigada – bom fim de semana…
    Beijos e abraços
    Marta

    Comentar por Marta Vinhais — 2009/06/26 @ 13:28 | Responder

  34. Não conhecia este teu espaço.
    Apesar de te ler há anos e, por isso, não ser para mim uma novidade, saio daqui maravilhado com o excelente nível da tua poesia.
    Continua a escrever assim e a publicar (aqui, nos outros blogues e em livro). Os teus leitores agradecem.
    Um beijo querida amiga.

    Comentar por Nilson Barcelli — 2009/06/27 @ 16:33 | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

%d bloggers like this: